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Entrevista da Ciência Hoje a Peggy Whitson

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Entrevista da Ciência Hoje a Peggy Whitson

Mensagem por Carlos Costa em 17th Junho 2008, 22:34


Peggy sente-se uma pequena parte da Descoberta do Universo

Aos 48 anos, Peggy Whitson, a primeira mulher a comandar a Estação Espacial Internacional (ISS), ainda não perdeu o sotaque de quem cresceu num rancho do Iowa, no «midwest» americano. Foi em casa que, aos oito anos, viu o primeiro passo do homem na Lua e ficou com o bichinho de querer ser astronauta. Ao telefone de Houston, do Centro Espacial da NASA, a astronauta norte-americana do momento – regressou em Abril de seis meses à frente da ISS, deu uma entrevista exclusiva ao Ciência Hoje, na véspera de um dia inteiramente dedicado aos media em que se comemoram os 25 anos do voo histórico de Sally Ride, a primeira mulher no espaço.


«Nós estamos muito bem treinados! Não tenho medo no Espaço»

Num jeito simples, Peggy, cientista de um currículo enorme de onde saltam à vista as distinções da NASA, o recorde feminino de "spacewalking" e o vigésimo lugar na lista dos veteranos espaciais, disse estar muito orgulhosa por fazer parte da História da Descoberta do Universo.


Ciência Hoje – Costuma dizer-se que quando se vê a Terra do espaço é que se percebe o quão frágil é o nosso planeta. É verdade?
Peggy Whitson - Sim, é mesmo verdade. A atmosfera do nosso planeta é tão fina comparativamente com o tamanho do nosso planeta. É surpreendente ver o quão frágil e pequenos parecemos.

CH – Ser a primeira mulher a comandar a Estação Espacial Internacional alguma vez a fez sentir algum tipo de discriminação?

P.W.: - Não. Penso que tive muita sorte. Durante todo o tempo em que treinei, e mesmo quando estava a estudar, nas tripulações, nos meus mentores e colegas havia sempre mulheres muito fortes. A minha mãe também é uma mulher muito forte. Penso que as grandes influências que tive na minha vida sempre me mostraram que era possível conseguir tudo o que quisesse. Isso ajudou-me muito.

CH – Como é a rotina na Estação Espacial Internacional?

P.W. - Bom, há muitas coisas rotineiras mas é difícil esquecermo-nos de que estamos no espaço - a ausência de gravidade faz com que tenhamos de pensar de forma diferente para cada tarefa, não é como se a estivéssemos a fazer em terra. Neste sentido, acho que não chega a haver propriamente uma rotina - é sempre muito diferente conduzir experiências científicas ou reparações naquele ambiente.

CH – Quais eram as suas tarefas?

P.W. - Enquanto comandante da estação a minha prioridade era a segurança da tripulação. Mas o meu papel era mais amplo, tinha de garantir que todas as nossas experiências estavam a ser bem conduzidas. Esta missão foi muito específica, tivemos muita sorte porque foi um período muito activo. Tivemos três Shuttles a chegar e tivemos de nos coordenar com eles. Durante a expedição recebemos mais três módulos pressurizados, o que aumentou de forma dramática o volume interno da estação. Recebemos também o primeiro Veículo de Transferência Automatizado (ATV - Automated Transfer Vehicle) da ESA, o Júlio Verne. Foram tempos muito ocupados.

CH – Há diferenças entre os astronautas e as astronautas?

P.W. - Bem, acho que há sempre diferenças na forma como um homem ou uma mulher olham para um problema. Acho que a vantagem de existir uma variedade de personalidades na tripulação, com pessoas com diferentes backgrounds, é poder aproveitar essas diferenças nas situações que vão surgindo. Há alturas em que precisamos de uma pessoa muito meticulosa, outras em que dá jeito alguém mais operacional, com uma perspectiva mais ampla. Penso que a equipa ideal tem de juntar as peças todas.

CH – Em que é que pensa um astronauta quando levanta voo?

P.W. - Desta vez deixámos a Terra num Soyuz, uma nave russa mas, na minha primeira missão, fui para o espaço num Shuttle (vaivém). O meu primeiro pensamento, porque íamos no Soyus que tem um levantar muito mais macio e não num Shuttle, em que se sente a vibração toda e o stress é muito mais rápido, foi qualquer coisa como "já estamos a andar?"… [risos]

CH – Nesta expedição passou seis meses na estação espacial, o que perfaz um ano se juntarmos a missão de 2002. Além de ser um recorde para um astronauta norte-americano, tem saudades de lá estar?

P.W. - Desta vez, como já lá tinha estado, senti-me como se estivesse a regressar a casa. Gostei muito de estar lá das duas vezes e tive a sorte de poder desenvolver trabalhos muito diferentes. Da primeira vez que lá estive fiz essencialmente investigação científica, já esta missão focou-se mais em receber os novos módulos. Teve um sabor diferente e foi talvez mais entusiasmante.

CH- Quando está no espaço tem algum medo, alguma fobia?

P.W. - Nem por isso. Nós estamos muito bem treinados e o facto de já lá ter estado antes fez-me sentir muito confortável. Os meus medos têm mais a ver com não conseguir completar as tarefas que nos são atribuídas, para que possam vir outros depois, para que o próximo Shuttle possa acoplar. O medo é de não conseguir terminar o trabalho que foi planeado.

CH – E lá, de que é que tem mais saudades?

P.W. - Bom, da comida sem dúvida – é um bocado aborrecido estar sempre a comer de latas e pacotes, além de que eu gosto de cozinhar, de inventar pratos. Mas penso que aquilo de que mais tenho saudades é da família e amigos, é muito importante vê-los e falar com eles. Ah, e também tenho saudades de coisas verdes. Desta vez tivemos uma experiência com plantas e fiquei surpreendida com a forma como ficava feliz só por poder ver uma plantinha crescer.

CH – No total tem 39 horas e 46 minutos de passeios fora da nave, um recorde no que diz respeito a mulheres astronautas. Como descreve essa experiência?

P.W. - Em inglês diz-se "spacewalking" mas não é bem andar, é mais flutuar [risos]. Temos de controlar o nosso corpo - aprendemos a fazê-lo dentro da estação mas lá fora, quando estamos entre 130 e 180 quilos mais pesados, temos de reaprender a mover-nos. Quando ultrapassamos esse obstáculo é quase como desenvolver actividades dentro da estação, em que estamos mentalizados de que não há gravidade. Quando saímos lá para fora temos novamente um centro de gravidade, com o tempo essa mudança vai-se tornando mais simples.

CH – É cansativo?

P.W. - Sente-se a pressão do fato a proteger o corpo do vácuo do espaço - É muito cansativo. Mas é a coisa mais espectacular … Estar no espaço é como passar toda a vida num quarto escuro e, de repente, alguém acende a luz, olhamos pela janela e há toda uma textura e cor que nunca tínhamos visto. Ir lá fora quando se está a viver dentro de quatro paredes é uma sensação única. Os russos têm um nome para os fatos espaciais que significa águia... É talvez a imagem mais parecida que consigo dar do que é voar à volta do planeta.

CH – Qual é a coisa mais bonita de que se lembra de ter visto?

P.W. - É uma escolha difícil. Adoro as cores e a luz dos desertos no norte de África, é uma imagem muito quente – imagino que também seja muito quente lá… [risos]. Mas acho que a imagem mais bonita que guardo na minha cabeça são os corais vistos lá de cima, sobretudo nas Caraíbas, são a coisa mais bonita que se pode ver.

CH - Quando olha para o universo lá de cima, enquanto cientista, acredita em Deus ou em alguma coisa para além do Big Bang?

P.W. - Acho que acima de tudo essa visão dá-nos uma perspectiva muito especial de quem somos e de qual é o nosso lugar no mundo e no universo - não só no mundo. É difícil voltar a pensar que o nosso planeta é o centro do que quer que seja. Abre-nos os olhos para o quão grande e incrível é o universo. É uma experiência iluminadora.

CH – Esta é uma pergunta típica para um astronauta: acredita em extraterrestres?

P.W. - Tenho a certeza que há outras formas de vida por aí. Seria muito mau se não houvesse.

CH – Quando terminou a sua licenciatura em biologia e química e, mais tarde, o doutoramento em bioquímica, já sabia que queria ser astronauta?

P.W. - Sim, já. Eu vi o primeiro homem a andar na Lua em casa, quando tinha 8 anos. Quando temos 8 anos, querer ser astronauta é uma ideia tão "fixe" como outra qualquer, mas foi-se mantendo. Um ano depois de acabar o liceu houve uma primeira classe de astronautas que tinha mulheres e acho que foi aí que fixei o meu objectivo: ia ser astronauta.

CH – Vê o espaço como um enorme laboratório?

P.W. - Sim, um laboratório incrível. As nossas expectativas são enormes – é um sítio único para trabalhar.

CH – Acha que as missões tripuladas são indispensáveis na exploração do universo?

P.W. - Eu penso que a combinação das missões robóticas com as tripuladas é o caminho a seguir. As missões robóticas ajudam a obter dados adicionais mas acho que o resultado é melhor, conseguimos mais informação, se estivermos envolvidos directamente, enquanto pessoas, na exploração do universo.

CH - A Agência Espacial Europeia está a recrutar astronautas e pela primeira vez há candidatos portugueses. Qual é a missão de um astronauta e que mensagem tem para aqueles que querem ir para o espaço?

P.W. - A missão de um astronauta é levar uma imagem do universo da melhor forma que podemos ao maior número de pessoas que pudermos. O trabalho de explorar, de dar passos novos, é uma parte muito pequena do nosso trabalho. Passamos grande parte do nosso tempo a trabalhar para que a próxima tripulação ou o próximo veículo consiga desempenhar as suas tarefas melhor do que nós conseguimos. A nossa missão é muitas vezes ajudar outros a dar grandes passos.

CH – Sente-se parte da História da Descoberta do Universo?

P.W. - Sim, sinto-me uma pequena parte e é um sentimento enorme. Estou muito orgulhosa.

Carlos Costa
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