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Nova biografia de Albert Einstein

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Nova biografia de Albert Einstein

Mensagem por Carlos Costa em 30th Dezembro 2007, 23:21

A nova biografia de Einstein, por Walter Isaacson, usa as cartas divulgadas em 2006 e mostra um homem mais rebelde e mulherengo, mas também inclinado à religião

Albert Einstein (1879-1955) não é o tipo de personagem sobre quem se pergunte 'para que uma nova biografia?'. O pai da teoria da relatividade foi também uma figura pública célebre e controversa, além de ter se tornado a própria imagem do gênio. Logo, sua história nunca será suficientemente explicada e será sempre tema de biografias e estudos sem-fim. Além disso, a abertura no ano passado de cartas inéditas escritas por ele, que estavam no espólio de sua enteada, lançou alguns feixes de luz sobre seu comportamento.

Na biografia de Walter Isaacson, Einstein - Sua Vida, Seu Universo (Companhia das Letras, 675 págs., R$ 64), que acaba de chegar ao Brasil e já é best-seller em vários países, essas cartas servem para mostrar como ele foi ainda mais rebelde em relação às convenções - científicas, mas também sociais. Aparece, como nunca antes, arrogante, mulherengo e antinacionalista. Ao mesmo tempo, Isaacson dá grande atenção a seu desejo de um universo mais ordenado e previsível do que o sugerido pela mecânica quântica e associa esse desejo a um impulso religioso.

É como se, para lidar com esse Einstein atrevido, que às vezes parece julgar moralmente (como quando o repreende por não ter paciência para 'os problemas dos outros'), o autor precisasse dar ênfase ao contraponto. Biógrafo de Benjamin Franklin e Henry Kissinger, Isaacson - que concedeu entrevista ao Estado por e-mail - fez de Einstein um homem com vocação para astro, tentou ser muito didático com suas idéias e dedicou boa parte dos capítulos à sua vida nos EUA. Embora não mencione a visita do físico ao Brasil, o livro tem tudo para fazer muito sucesso também por aqui.

Em muitos sentidos, Einstein não era o gênio do estereótipo: não era criança prodígio, não era estudante fenomenal, não era um romântico 'outsider'. A revolução estava dentro dele. Será por isso mesmo que continuamos a ler as biografias dele? Ou o sr. não escreveria seu livro se não fosse pelas novas cartas?

O gênio de Einstein vinha de sua imaginação e criatividade. Ele era capaz de pensar fora do esquadro e visualizar as coisas de modo diferente. Parte disso veio do fato de ter demorado a começar a falar: ele pensava em imagens mais do que em palavras. Isso também se deve ao fato de ser intelectualmente um rebelde: ele desafiava a autoridade e contestava o dogma dominante. E isso fica muito claro nessas novas cartas.

Sua biografia também soa nova ao descrever fatos em outra perspectiva. Por exemplo, o sr. diz que trabalhar com patentes num escritório da Suíça foi bom para ele, pois as questões da vida real o ajudaram a lidar com a teoria. O sr. não diria que a diferença foi que desde adolescente ele se concentrava em poucos e fundamentais problemas?

Desde quando era adolescente, ele tentava visualizar como seria viajar ao lado de um raio de luz. E se ele fosse pego numa onda de luz? Ela não pareceria estacionária a ele quando a olhasse? Mas as equações de Maxwell dizem que isso não é possível. A onda tem de viajar sempre à mesma velocidade. Ele meditou sobre isso durante anos. No escritório de patentes, ele observava um monte de aplicativos para equipamentos que poderiam ser usados para sincronizar relógios distantes. Isso o fez pensar sobre o significado da simultaneidade e se as pessoas em diferentes estados de movimento definiriam de modo diferente o que era simultâneo. Ele percebeu que elas definiriam, sim, e isso o ajudava a responder o dilema sobre a velocidade constante da onda de luz e seria um passo em direção à teoria especial da relatividade.

O sr. dá muita atenção às dúvidas dele sobre Deus, religião, unidade. Einstein escreveu que era um agnóstico, que a idéia de um legislador moral não era necessária (carta para M. Berkowitz, em 25/10/1950). Por que a discussão?

Einstein disse que era religioso, que acreditava que existe um espírito manifesto nas leis do universo, um espírito diante do qual ele se sentia humilde e admirado. Esse era seu sentido de fé. Não acreditava num Deus pessoal a quem pudesse rezar para que fizesse milagres por nós. Mas ele também dizia que odiava ser chamado de ateu. Sua visão era muito interessante, e é por isso que devoto um capítulo inteiro a seus escritos sobre Deus.

Sua busca de uma teoria unificada não era uma busca científica e filosófica, em vez da busca por uma nova religião? Suas teorias foram um grande baque para visões holísticas, não?

Sim, sua busca por uma teoria unificada foi motivada por seu realismo científico. Ele acreditava que havia leis que determinavam o que acontece no universo, e a incerteza e a probabilidade e o acaso no coração da mecânica quântica o deixavam desconfortável.

O sr. acha que o gênio de Einstein era o de combinar a razão e a imaginação em alto grau, onde as fronteiras entre arte, ciência e humanidades já não existem? Ele não era como Darwin, totalmente aberto a novas questões genéricas em vez de específicas?

Acho que o gênio dele vinha da capacidade de ver coisas - como a gravidade - de uma forma totalmente nova.

O sr. escreveu que 'ele tinha pouca inclinação ou talento para dividir os problemas dos outros, e compensava concentrando-se no que era importante para ele'. Não seria o contrário? Ele tinha uma mente tão concentrada em problemas complexos que naturalmente tinha pouca paciência para os problemas do cotidiano. No Brasil, ficou bem aborrecido com os discursos e bajulações...

Sim, ele às vezes se referia a assuntos não-científicos como 'meramente pessoais'. Ele dizia que escapava dessas distrações mergulhando na ciência.

Embora não fosse tão bom marido ou pai, ele não era um homem agressivo ou frio, era? Depois de ler seu livro, sentimos mais afeto por ele, não apenas pelo que ele fez.

Ele era um homem gentil, um grande humanista. Ele era, especialmente no começo da vida, frio com seus familiares. Mas depois se tornou mais e mais caloroso à medida que envelheceu, assim como uma alma caridosa com a humanidade em geral.

Muitas pessoas dizem que a teoria de Einstein significa 'tudo é relativo'. Que livros além do seu o sr. recomendaria a elas que lessem? Bertrand Russell e Kip Thorne fizeram introduções; há as biografias de Abraham Pais e Albrecht Folsing. E o que sr. acha de livros que tentam interpretá-lo ficcionalmente, como o de Alan Lightman (Os Sonhos de Einstein)?

Há dúzias de livros maravilhosos sobre Einstein. Eu recomendaria o livro que ele mesmo co-escreveu com Leopold Infeld chamado A Evolução da Física. Recomendaria as maravilhosas biografias de Folsing e Pais. E também as análises científicas de Jeremy Bernstein (Albert Einstein and the Frontiers of Physics) e Peter Galison (Einstein's Clocks, Poincaré's Maps), assim como o livro delicioso de Lightman.

Desde a morte de Einstein, a física quântica foi se tornando mais e mais forte, embora ninguém ainda a tenha tornado compatível com a relatividade. Em face de novas evidências, Einstein não faria uma revisão de suas idéias?

Einstein, creio, admiraria a mecânica quântica por seu grande sucesso, mas se estivesse vivo suspeito que ainda estaria procurando por uma teoria do campo unificado que a reconciliasse com a relatividade.

Carlos Costa
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