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Filosofia do Fight Club

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Filosofia do Fight Club

Mensagem por Carlos Costa em 27th Outubro 2010, 18:47

"Somos apenas consumidores: simples sub-produtos de um estilo de vida obsessivo. Torcemos por clubes de futebol, mas não entramos em campo para jogar; não colocamos questões aos argumentos das "autoridades". Será que tudo o que fazemos é essencial para a nossa sobrevivência?"

Pretendo saber as vossas opiniões sobre um filme que achei muito inteligente e interessante: Fight Club.
Qual é a vossa opinião sobre as ideias filosóficas desse filme?





Última edição por Carlos Costa em 17th Março 2011, 18:05, editado 4 vez(es)

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Re: Filosofia do Fight Club

Mensagem por Mariana Isabel em 11th Novembro 2010, 15:08

Conheço uma análise sobre o filme bem boa. É a seguinte:

Fight Club e a Filosofia - Uma análise

Em determinada cena do filme Clube da Luta, o anônimo personagem interpretado por Edward Norton, vê imagens publicitárias de modelos masculinos vestindo apenas roupas de baixo e indaga Tyler Durden, personagem vivido por Brad Pitt, se é aquilo a representação do “ser um homem”. A réplica: “Auto-desenvolvimento é masturbação. Agora, a auto-destruição...” e a resposta é deixada no vazio, acompanhada por um riso irônico de Durden e por um olhar de percepção (quase um insight) por parte do anônimo Norton. O riso irônico de Tyler Durden é a representação do domínio do conhecimento; sua consciência de que a sabedoria é mais importante que seu corpo. Em outro momento do filme, Tyler brada que “apenas após perder tudo, é que você estará livre para fazer o que quiser. Nada é estático. Tudo está desmoronando. Esta é a sua vida. E ela está terminando um minuto por vez”. Com tal frase, ele confirma a certeza de que, sim, ele sabe do que está falando. Ele reconhece o caminho que a sociedade consumista e capitalista está seguindo. Seja no culto ao corpo perfeito ou na dedicação do preenchimento do vazio da vida com objetos comprados no shopping, ele sabe para qual buraco fétido a sociedade caminha. Mas, o mais importante, é que ele está fazendo o que pode (e ele pode muito!) para resolver tal situação. “Apenas após perder tudo e estar em equilíbrio consigo, é que você estará livre para fazer o que quiser” complementa enquanto exibe a mão queimada e cicatrizada por lixívia.

O anônimo Norton é a representação do modo de agir e pensar da atual sociedade capitalista. Fechada num mundo particular de consumismo e falsa segurança, ela é habitada em cada um de seus componentes por Tylers escondidos e loucos para sair. Aproxima-se do conceito platônico de conhecimento intimo na maiêutica: o conhecimento habita cada um; basta percebê-lo. Zenão de Cítio traz em sua doutrina o equilíbrio humano separando o corpo da razão. É como se Tyler representasse a figura de Zenão no século XXI: alguém ciente da necessidade de perder as amarras que o prendem ao mundo no sentido de alcançar o foco de sua própria sapiência. A partir da violência consciente (diferente totalmente dos atos de vandalismo praticados por certos grupos urbanos), os homens do Clube perderam suas amarras. Alcançaram o ideal de perceber o quanto suas mentes merecem ser valorizadas. “Vejo aqui reunidos os mais bravos e inteligentes homens do mundo. Uma lástima o fato uma geração inteira estar servindo mesas, enchendo tanques, entregando pizzas”, lamenta-se Tyler em determinado monólogo. E complementa fazendo um paralelo à nossa sociedade: “A mídia nos faz correr atrás de empregos inúteis para comprar coisas que não queremos, que não precisamos. A televisão nos fez acreditar que um dia seremos astros do Rock ou milionários. Mas não seremos. E estamos, aos poucos, percebendo isso e ficando muito, muito zangados”.

O estoicismo pregado por Zenão de Citio trazia em sua essência o desprendimento de tudo o que é inútil (incluindo nisso a importância que seu próprio corpo possui) para alcançar o equilíbrio do espírito. Nesse desprezo ao material, mesclou-se (ou confundiu-se) o conceito pregado por Jesus Cristo, onde o martírio e o sacrifício podem levar ao equilíbrio do conhecimento. Negado pelos cristãos como uma influência para sua religião, o estoicismo é encarado pelos seguidores de Jesus como um desprezo do homem por si mesmo e pelo mundo. Nada mais do que um desespero do ser humano ao constatar, no mundo e na sua própria existência, a ausência de um Deus por ele rejeitado. Impossível não relacionar esse fato a uma outra declaração de Tyler Durden: “Deus foi incluído em nossas vidas como um modelo de nossos pais. Se eles (os pais) nos abandonaram, Deus fez a mesma coisa. Somos os filhos indesejados de Deus. Provavelmente, ele nos odeia”.

Contrário ao estoicismo, surge Epículo e sua declaração de que o homem foi feito para a felicidade. O epicurismo traz, em seu conceito, limites para os exageros da vida. Para Epículo, a doença que acomete uma pessoa é um aviso do corpo. Um aviso de um exagero cometido. A parcimônia (para usar um termo adequado ao conceito estudado) é a chave para a felicidade pregada pelo epicurismo: o homem deve buscar o prazer na medida de sua felicidade. A análise do epicurismo, relacionada à sociedade atual do século XXI, possui uma libertação interna do homem capitalista preso ao modo de vida imposto pelo trabalho. Cita-se o professor de Filosofia Davidson Sepini, da Puc de Poços de Caldas, em artigo1 publicado on-line:

“Epículo acreditou em uma felicidade que flui de dentro do homem e, portanto, edificada a partir de um processo de libertação interior que exclui da vida, o medo e a dor causados, muitas vezes, pelo ritmo da sociedade atual. Isso faz do epicurismo uma teoria atual. Vivemos presos, temos medo e sentimos dor. Estamos impossibilitados pelo tempo e pelo espaço. A vida atual nos remete a uma “morte” diária, como disse João Cabral: ‘de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia’. Velhice causada pelos preconceitos, pelo trabalho alienado; emboscada que é própria da sociedade capitalista, que oferece todas as possibilidades e ao mesmo tempo exclui; de fome de entendimento, de aclaramento em relação ao que acontece no mundo e de fome de mudança, de transformação.”

Nesse paralelo da doutrina de Epículo com a sociedade atual, encontra-se uma relação, ao invés de contrária entre este e Zenão, complementar. Vendo por esse modo, o epicurismo e o estoicismo se completam dentro de seus conceitos e limitações. O homem da sociedade atual, vaidoso em seu culto ao corpo e desmedido na busca pelo prazer (seja ele relacionado ao dinheiro ou ao sexo), transforma sua vida em um ciclo vicioso, onde a conquista de pequenos prazeres lhe traz uma satisfação pessoal que logo é suprimida pela necessidade de querer mais. Nesse raciocínio, o conceito de Epículo cai por terra, pois tal felicidade é volátil e sem substância. O homem precisa alcançar o equilíbrio mental e ter consciência de que sua felicidade é plena. Somente assim, ele estará seguindo o conceito epicurista. “Você precisa saber, não temer, o fato de que um dia você morrerá. Até o momento em que você souber disso, você é um inútil”, profetiza Tyler em uma frase que remete ao conceito de Epículo sobre a morte

A partir desse domínio do equilíbrio mental, volta-se a analisar a relação de Zenão com Tyler Durden. Para este último, o equilíbrio mental não está vinculado a nenhuma posse ou poder aquisitivo. Para Durden, o que importa não é o conteúdo de sua carteira ou o carro que dirige. O que interessa realmente é sua massa encefálica; é a sua razão; é o seu discernimento. É neste ponto que se conclui a relação de Zenão na Antigüidade e Tyler como representante do homem da época atual: o primeiro,entregou-se a todos os prazeres esquecendo-se do corpo e visando seu equilíbrio mental; o segundo, após ter conquistado tudo o que o mundo atual pôde oferecer de posse material, percebeu que nada daquilo importava. Na busca pelo conhecimento pessoal, encontrou, de forma inconsciente, o estoicismo e, a partir dele, conseguiu se salvar. Um claro exemplo a ser seguido pelos consumistas do século XXI.

Fonte: http://odioenquantodurar.blogspot.com/2009/11/fight-club-e-filosofia-uma-analise.html

Mariana Isabel
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Re: Filosofia do Fight Club

Mensagem por Carlos Costa em 11th Novembro 2010, 16:06

Muito boa essa análise. No entanto, seria bom saber a opinião de um filósofo. Pergunto-me se a doutrina "Tyler Durden" é mesmo real ou apenas uma lavagem cerebral?...

Carlos Costa
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Re: Filosofia do Fight Club

Mensagem por Carlos Costa em 17th Março 2011, 18:02


Este filme é baseado no romance homónimo de Chuck Palahniuk. Deixem-me dizer desde já que o romance está muito melhor do que o filme. No romance tudo é mais frio e desesperante e, para além disso, pode ser visto como um manual para um terrorista. Se você quiser seguir a carreira de terrorista, e um dia pertencer à Al-Qaeda, leia este romance. No romance as lutas não são tão importantes como no filme. As lutas servem apenas para largarmos as nossas inseguranças, mas no filme as lutas são o centro gravitacional. As lutas não importam: o que importa é deixarmos de ter medo de sermos quem somos, como dizia o filósofo Nietzsche.

A personagem principal do filme (Edward Norton) é um anónimo; em nenhum momento ele diz o seu nome. Esta personagem é o homem comum, o homem moderno. Ele tem um emprego muito bom, numa companhia de automóveis. Nessa empresa ele trabalha na área dos seguros e recebe um excelente ordenado. Tem um apartamento espetacular, com um recheio ultra-moderno e super-IKEA, uma TV por cabo com centenas de canais, roupas das melhores marcas, uma aparelhagem de música de última geração e sofás Strinne com padrões de listas verdes. No entanto, não consegue dormir. A sua vida é tão estúpida e sem sentido que o anónimo está, literalmente, congelado, ele é apenas uma função social descartável.

Ele vai ao médico e este recomenda-lhe que visite grupos anónimos de cancro do testículo para ver dor a sério. O médico estava a ser sarcástico, mas resultou. Nesses grupos, compostos por zombies pessimistas, liliputianos e decadentes, o anónimo tem uma catarse e, finalmente, consegue dormir! Liberdade! O anónimo encontrou um sentido para a sua vida, embora, temos que admitir, um sentido um pouco esquizofrénico, mas então surge Marla Singer (Helena Carter), uma drogada desgraçada.

A filosofia de Marla é que pode morrer a qualquer momento, mas a sua grande tragédia é que não morre! Nesta filosofia podemos ver um pouco do anónimo e de muitos de nós. Queremos mudar de vida, queremos deixar de ter medo e de arrancar as correntes, mas não conseguimos. O problema não é termos poucas escolhas; o problema é que não temos escolha nenhuma! Estamos condenados a esta vida de liliputianos. Acreditamos que um dia vamos ser milionários e famosos, mas não vamos! Apesar de alguns conseguirem, a verdade é que a grande maioria das pessoas, 50 anos depois de morrerem, desaparecem como se nunca tivessem existido. Nem os próprios bisnetos se lembram delas.

Como Marla é um “espelho” do anónimo, este deixa de conseguir dormir. Tentam então dividir os grupos entre si, mas essa solução não ajuda mais o anónimo. Como ele sabe que existe uma impostora nos grupos de zombies, não consegue mais pregar o olho. Vemos então o anónimo a viajar para todos os lados de avião, um zombie distorcido a trabalhar, a receber com indiferença os seus “single-serving sugar, single-serving cream, single pad of butter, the microwave cordon bleu hobby kit. Shampoo-conditioner combos, sample packets of mouthwash, tiny bars of soap”, unidades patéticas que todos nós recebemos por parte de funcionários que esboçam um grande sorriso. Pague 2 leve 3, aqueles pedaços de sabonete em miniatura que vemos nos hóteis, aquelas unidades de perfume de amostra que recebemos pelas ruas, os chocolates que recebemos no café, os extras “gratuitos” que abundam no comércio. Estas ofertas em miniatura ainda desesperam mais o anónimo que agora já reza para morrer. Mas, então, surge Tyler Durden (Brad Pitt), um “single-serving friend”, um além-do-homem nietzschiano.

A filosofia de Tyler é a seguinte: deixe de tentar controlar tudo, não tente mudar o futuro, evolua mesmo que no processo encontre a tragédia. Que se lixe os seus objetos pessoais, as suas roupas Armani e a sua televisão com 980 canais. Tudo isso está no Titanic! Tyler Durden já ultrapassou todos os valores humanos e a moralidade da manada, tornando-se por isso um homem livre, superior, aquele que todos nós gostariamos de ser. Tyler vai foder a nossa namorada, mijar para a nossa sopa e olhar de cima para baixo caso o insultemos; para além disso, com ele não dá para conversar sobre os nossos “dramas” e dúvidas. Ele está para além, está na outra margem.

Depois do apartamento do anónimo, com marca registada IKEA, explodir, este vai viver para a casa de Tyler, uma espécie de casarão-armazém decadente digno de um miserável que vive num país do terceiro mundo. No processo de mudança, os dois começam uma luta num parque de estacionamento. Esta luta torna-se em muitas lutas e acaba por surgir um clube de combate, onde os párias e desgraçados da sociedade procuram a iluminação sob a forma de um murro nas trombas.

Mais tarde, surgem clubes de combate por todo o país e trabalhos de casa. O final é óbvio: um projeto com tiques anarquistas, a destruição da sociedade capitalista e consumista. E é exatamente aqui que este filme inteligente adquire o comum estilo americanóide de um fim fácil, feliz e que agrade a todos os zombies. Até à parte das lutas o filme tinha uma filosofia excelente, mas com o “Project Mayhem” o filme adquire tons anarco-primitivistas agressivos. Podemos dizer que o Tyler Durden superior e divertido foi transformado num monstro com saídas fáceis, um monstro que até Hitler aplaudiria. É notória a evolução de Tyler durante o filme: começa relaxado, divertido e solto quando aparece pela primeira vez no avião, mas com o desenrolar do filme torna-se cada vez mais idealizado, mais musculado, mais frio e com discursos de ditador. No princípio ele oferece a sua filosofia com indiferença, mas no fim obriga todos a seguirem essa filosofia.

Depois de um acidente de carro, Tyler desaparece e o anónimo fica sem saber o que fazer. Vai então à procura dele para o confrontar, mas não o encontra em lado nenhum, em cidade nenhuma. Pior, parece que está sempre um passo atrás dele, mas nunca o apanha. Então, surge a obra-prima do filme: o anónimo descobre que ele e Tyler são a mesma… pessoa! Como é que isto aconteceu? Fácil, como disse num dos parágrafos acima o anónimo não via maneira de mudar a sua vida. Pura e simplesmente, ele não tinha nenhuma escolha. A única coisa que pôde fazer foi criar um alter-ego, pois a sua personalidade base estava congelada no ártico do fazer o que se deve fazer, do comprar porque comprar é algo bom e trás felicidade, da teia do parecer da sociedade moderna e sua moralidade, modos de conduta e valores. Tyler Durden é tudo aquilo que o anónimo queria ser.

Depois do anónimo ter “matado” os seus pais e o seu Deus, agora tinha chegado a altura de matar o seu professor, Tyler Durden. Os seus olhos já estavam abertos, ele já conseguia ver o caminho fétido pelo qual a sociedade capitalista e consumista segue. Como o caminho de Tyler estava a seguir por um rumo destrutivo, o anónimo dá um tiro sobre si próprio e com isto mata o seu professor, o seu mestre. A transformação está completa.

O Fight Club é um filme tão inteligente que poucos perceberam a sua filosofia. As lutas são vistas como algo espetacular por uns e horrível por outros, mas poucos conseguem ver para lá das lutas. Você já acordou alguma vez ansioso, com o coração a bater a mil à hora e com os seus desejos mais profundos a gritar por satisfação e realização? É o seu Tyler Durden a querer sair: deixe-o sair, utilize-o e depois, quando a transformação estiver completa, não se esqueça de o matar.

Carlos Costa
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