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O azarado Guillaume Le Gentil

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O azarado Guillaume Le Gentil

Mensagem por Carlos Costa em 17th Março 2011, 18:12

Guillaume Le Gentil (1725-1792) pode ser considerado o cientista mais azarado de sempre. No entanto, a sua história de vida é digna de um homem de ferro, um estóico. Le Gentil foi uma espécie de D. Quixote e todos podemos aprender com ele. Devemos seguir o exemplo dele e nunca desistir. Se encontrarmos um muro à nossa frente que trave o nosso caminho, então devemos derrubar o muro à cabeçada e seguir em frente, sem sequer parar para limpar o sangue da testa. Perseverança, força e determinação!

Os episódios divertidos, trágicos e loucos de Le Gentil aconteceram quando este partiu de França a 26 de março de 1760. O seu objetivo era observar o trânsito de Vénus, de 1761, na costa leste da Índia e depois voltar para casa. O pior é que Le Gentil não sabia nessa altura que só voltaria para casa 11 anos depois!

Os trânsitos de Vénus ocorrem numa sequência que se repete a cada 243 anos, com pares de trânsitos espaçados de 8 anos, seguidos de longos intervalos de 121,5 e 105,5 anos. Por isso mesmo, Le Gentil, ao falhar o de 1761, ainda tinha uma última oportunidade: o trânsito de 1769. O pior é que até esse o pobre homem não conseguiu observar.

No livro de astronomia O despertar na Via Láctea, de Timothy Ferris, encontramos um resumo das aventuras de Guillaume Le Gentil. Transcrevo esse trecho onde as aventuras do cientista azarado são relatadas:

Menos afortunado de todos foi Guillaume Le Gentil, que partiu da França a 26 de março de 1760, planejando observar o trânsito do ano seguinte na costa leste da Índia. Monções desviaram o curso do navio e o dia do trânsito o encontrou enfrentando uma calmaria no meio do oceano Índico, incapaz de qualquer observação útil. Disposto a redimir a expedição com a observação do segundo trânsito, Le Gentil marcou passagem para a Índia, construiu um observatório no alto de um paiol obsoleto em Pondicherry, e esperou. O céu permaneceu maravilhosamente claro durante todo o mês de maio, para encher-se de nuvens a 4 de junho, a manhã do trânsito, clareando de novo tão logo o fenômeno terminou. Escreveu Le Gentil:

Passei mais de duas semanas numa depressão singular e quase não tive coragem de pegar uma pena para continuar meu diário. E por várias vezes ela me caiu das mãos, quando chegou o momento de informar à França o destino de minha operação… É essa a sorte que com freqüência espera os astrônomos. Eu tinha viajado mais de dez mil léguas; parecia que tinha atravessado tamanha extensão de mares, exilando-me de minha terra natal, apenas para ser espectador de uma nuvem fatal que se colocou frente ao Sol no preciso momento da observação, para me privar dos frutos de minhas dores e minhas fadigas.

O pior ainda estava à sua espera. Atacado pela disenteria, Le Gentil ficou na Índia mais nove meses, de cama. Reservou então passagem de volta a bordo de um navio de guerra espanhol que perdeu o mastro num furacão ao largo do cabo da Boa Esperança e foi arrastado para fora de seu curso, para o norte dos Açores, até entrar finalmente, com dificuldades, no porto de Cádis. Le Gentil atravessou os Pirineus e pôs finalmente o pé em solo francês, depois de 11 anos, 6 meses e 13 dias de ausência. Ao chegar a Paris ficou sabendo que tinha sido declarado morto, sua propriedade fora saqueada, e o que dela restou, dividido entre seus herdeiros e credores. Renunciou à astronomia, casou-se e retirou-se para escrever suas memórias…

Carlos Costa
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