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Autobiografia de Charles Darwin

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Autobiografia de Charles Darwin

Mensagem por Carlos Costa em 26th Maio 2011, 11:58


Darwin: nem médico, nem padre! Cientista!
Lê-se a autobiografia de Charles Darwin e percebe-se como se faz um homem das ciências. Nas memórias da vida que escreveu para deixar aos filhos e aos filhos deles conta que se, aos 18 anos, lhe tivessem dito que um dia viria a ser membro honorário da Royal Society de Edimburgo ou da Royal Medical Society, lugares onde então se movia com terror e reverência, acharia tão ridículo como pôr a hipótese de um dia ser rei de Inglaterra. Na realidade, diz que nunca perseguiu poder ou fama, mas o reconhecimento como naturalista e homem das ciências desembarcou em Inglaterra ainda antes do Beagle.

Charles Darwin nasceu a 12 de Fevereiro de 1809, em Shrewsbury, no seio de uma família de nobreza rural. A mãe, que sempre conheceu doente, morreu quando tinha oito anos e dela pouco mais lembra do que o leito de morte. Pelo pai a admiração manteve-se até ao final da vida, apesar de não ter estado presente no seu funeral por motivos de uma saúde. Robert Darwin, médico e físico, nunca deixou de surpreender o filho pela bondade e a capacidade quase sobrenatural com que compreendia a essência das pessoas, até porque ele próprio tinha uma confessa dificuldade em experimentar sentimentos. À excepção, mais tarde, do amor aos filhos.

Em família vivia num constante desafio às regras impostas pela irmã mais velha, os mimos e zelo em excesso dos criados e alguma lentidão na aprendizagem. Entrou para o externato local, pelos dez anos e, nessa altura,conta que já tinha o bichinho da ciência com um desenvolvido gosto pela história natural e por coleccionar. "A paixão por coleccionar que leva uma pessoa a ser um naturalista sistemático, um antiquário ou um avarento, era muito forte em mim e era claramente inata", escreve.

Nos anos no externato e depois no liceu interno não era particularmente bom aluno, dominava mal as línguas e, apesar de uma memória extraordinária, esquecia-se de tudo poucos dias depois. Não era preguiçoso mas tinha outros interesses como a caça, os animais e os amigos, lembra. "As únicas qualidades que tinham qualquer promessa para o futuro eram os meus gostos intensos e diversificados, muito zelo relativamente ao que me interessava e um grande interesse em compreender qualquer assunto ou objecto complexo", diz.

Depois do liceu o pai mandou-o para a Universidade de Edimburgo para tirar medicina. Ficou lá dois anos mas nunca terminaria o curso, até porque o papel de médico não era para ele - fugiu da sala de operações na única vez que viu operar uma criança. Ainda em Edimburgo começou a interessar-se por geologia e zoologia e fez uma primeira descoberta científica, apresentada na Plinian Society em 1826 – "que os chamados ovos de Flustra eram capazes de se mover por meio de cílios e eram na realidade larvas", escreve. "Os artigos que eram comunicados à nossa pequena sociedade não eram publicados e, portanto, não tive a satisfação de ver a minha obra impressa", lembra.

De medicina para teologia

Quando Robert Darwin percebeu que o filho não queria ser médico sugeriu que se fosse para padre anglicano. Uma vocação improvável face uma posição firme de agnóstico que viria a assumir no final da vida. Mas na altura, e mesmo durante a viagem a bordo do Beagle, Darwin orientava os seus princípios morais pelo Antigo Testamento e foi para a Cambridge fazer teologia. "Nunca me ocorreu como era ilógico dizer que acreditava naquilo que não podia compreender e que é na verdade ininteligível", diz na sua autobiografia.

Em Cambridge o tempo dividia-se entre ócio, serões com jogos de cartas, conversas demoradas com os melhores alunos, visitas a galerias de arte, ficar a ouvir os ensaios do coro do King's College ou ler poesia, prazeres estéticos, ou como diz, experiências do sublime, que deixariam de fazer sentido com o passar do tempo. Mas o grande projecto, brinca Darwin, era coleccionar escaravelhos. Procurava-os nas cascas das árvores e pagava para lhe recolherem lixo onde encontrava espécimes raros. Chegava a metê-los nos bolsos e na boca para conseguir levá-los a todos para casa. A recompensa chegou quando viu pela primeira vez o seu nome publicado na revista científica "Ilustrações de Insectos Ingleses", "capturado por C. Darwin…", lembra.

O homem que passeia com Henslow

Conheceu então Jonh Stevens Henslow (1796-1861), professor de Botânica e padre anglicano, que nunca criticaria Darwin pelo abandono da crença religiosa expressa na publicação de "A Origem das Espécies". A amizade com Henslow acabaria por influenciar de forma determinante a sua carreira, conta na sua autobiografia. No meio académico era conhecido pelo "homem que passeia com Henslow". Darwin conta que um dia quando estava a observar grãos de pólen percebeu o fenómeno da extrusão dos tubos polínicos e foi a correr contar-lhe.

"Ora suponho que nenhum outro professor de botânica podia ter deixado de rir perante a minha vinda tão apressada para fazer tal comunicação. Mas ele concordou que o fenómeno era muito interessante e explicou o seu significado, mas fez-me compreender claramente que era muito conhecido; e assim deixei-o sem ter ficado nada mortificado, antes bastante satisfeito por ter descoberto sozinho um facto tão notável", lembra.

Nos últimos anos de Cambridge conheceu pessoas influentes mas os seus interesses continuavam na colecção de escaravelhos, algumas leituras, caça e viagens de exploração a pé e a cavalo que viria a lamentar ter de deixar de fazer tão cedo na vida, devido à doença.

Apesar de conviver com homens de ciência só no final do período na universidade percebeu o que era a ciência. Um dia, em conversa com um trabalhador na sua terra natal, o homem dissera-lhe que tinham encontrado uma concha gasta de um molusco tropical na pedreira. Darwin confirmaria mais tarde que a zona pertencera ao período glacial e viria a encontrar vestígios de conchas de zonas árcticas mas na altura ficou espantado por um professor de geologia ter posto em causa a descoberta, alegando que se fosse verdade deitaria por terra tudo o que se sabia sobre os depósitos do centro de Inglaterra.

"Nada antes disso me tinha feito perceber tão completamente, apesar de ter lido vários livros científicos, que a ciência consiste em agrupar factos de modo a tirar deles leis ou conclusões", explica. Apesar desta consciência, acrescenta Darwin, "naquela época ter-me-ia considerado doido se perdesse os primeiros dias de caça à perdiz por causa da geologia ou de qualquer outra ciência".

A bordo do Beagle


Beagle, o barco onde Darwin viveu o acontecimento mais importante da vida
27 de Dezembro de 1831, 14h00. O Beagle sai do porto de Plymouth para uma segunda expedição para completar o levantamento da costa da América do Sul. O capitão FitzRoy, nomeado para a segunda viagem, perante o suicídio do capitão anterior e de um tio seu, quis recrutar um homem que lhe fizesse companhia durante a viagem, com gostos aristocráticos e alguns conhecimentos de História Natural. Darwin soube do recrutamento pelo professor Henslow mas teve alguma dificuldade em convencer o pai da mais-valia da viagem que acabaria por durar quase cinco anos. Com o apoio de um tio, deixaram-no participar naquela que ficaria conhecida como uma das maiores expedições de exploração.

A primeira paragem do Beagle foi na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. Darwin, então com 22 anos, tinha uma oportunidade única de examinar a fauna e flora locais bem como a geologia e os nativos, ainda que lhe faltassem os conhecimentos anatómicos e a capacidade de desenho para que as suas pilhas de anotações pudessem ser úteis.

Depois de Cabo Verde, o Beagle seguiu para a costa do Brasil, onde visitou a Bahia e Rio de Janeiro, o arquipélago de Abrolhos. A viagem continuou então pela Pantagónia, ilhas Malvinas e a Terra do Fogo. Dobrou o Cabo Horn, o ponto mais meridional da América do Sul. Darwin conheceu as Galápagos, a Nova Zelândia, a Austrália, a Tasmânia, as Maldivas, toda a costa ocidental da América do Sul, do Chile ao Peru, bem como as ilhas Keeling, Maurício e Santa Helena.

"Foi o acontecimento mais importante da minha vida"

"A viagem do Beagle foi de longe o acontecimento mais importante da minha vida e determinou toda a minha carreira. Fui levado a prestar muita atenção a vários ramos da história natural, e deste modo os meus poderes de observação melhoraram", escreve Darwin. "Tudo o que pensava ou lia era directamente relevante para iluminar o que tinha visto ou iria provavelmente ver; e este hábito mental continuou durante os cincos anos da viagem. Tenho a certeza de que foi este treino que me permitiu levar a cabo o que quer que tenha feito em ciência".

Durante grande parte do dia Darwin escrevia o seu diário, publicado pela primeira vez em 1839 sob o título "Journal and Remarks, 1832-1836" e meses depois reeditado como "Diário de Investigações na Geologia e História Natural dos Vários países visitados durante a Viagem do Navio da Marinha Real Beagle".

Na sua autobiografia, Darwin destaca a vegetação dos trópicos, os desertos da Pantagónia, as florestas da Terra do Fogo. "Também considero com muita satisfação parte do meu trabalho científico, como o de ter resolvido o problema das ilhas de coral e de ter descortinado a estrutura geológica de algumas ilhas, por exemplo Santa Helena. Nem posso omitir a descoberta das relações curiosas entre os animais e plantas que habitam as várias ilhas do arquipélago das Galápagos e entre eles e os habitantes da América do Sul", diz. "Trabalhei o mais que pude durante a viagem por mero prazer de investigar e por um forte desejo de acrescentar alguns factos à grande massa de factos da ciência natural", acrescenta.

Quando o Beagle chegou a Falmouth, Inglaterra, a 2 de Outubro de 1836 já nada era igual para Darwin. Henslow tinha lido à Philosophical Society de Cambridge as suas cartas e publicado tiragens particulares e alguns dos fósseis e espécimes recolhidos já tinham sido examinados por especialistas. Viveu um período de reconhecimento, envolvimento social e produção contínua de comunicações e artigos. Conta que, embora lhe desse algum prazer esse reconhecimento, não se desviou "uma polegada" do seu rumo para ganhar fama.

Casamento com Emma Wedgwood

Em 1839, Darwin casa com uma prima, Emma Wedgwood, um amor que lembra sincero e do qual nasceram dez filhos. Três deles tiveram uma morte prematura que Darwin associou sempre ao facto de ele e a mulher serem descendentes de linhagens próximas. O acompanhamento dos filhos e problemas de saúde prolongados fizeram com que se fosse progressivamente afastando dos círculos científicos embora mantivesse um trabalho sistemático que muitos diziam ser "em segredo".

"A Origem das Espécies", que começou a estruturar mal chegou da expedição do Beagle, só ficaria pronta 20 anos depois. Durante esses anos, Darwin reflectiu sobre as suas crenças religiosas e investiu em trabalhos complementares sobre as observações na América do Sul, entre elas um trabalho exaustivo sobre os Cirrípedes, uma forma que escava buracos nas conchas mas que diferia tanto das conhecidas que teve de criar uma subordem para ela.

A partir de 1854, dedicou-se quase a tempo inteiro à preparação do manuscrito de "A Origem das Espécies". Segundo Darwin, as motivações da obra foram algumas das observações feitas a bordo da expedição britânica: em primeiro lugar, assinala, a descoberta na formação fóssil dos Pampas, no Peru, de grandes animais fossilizados cobertos com uma armadura semelhante à dos tatus actuais; em segundo lugar, o modo como animais aparentados se substituem uns aos outros à medida que se vai em direcção ao sul do continente; e, em terceiro lugar, o carácter sul-americano da maioria das populações das Galápagos, que difere de ilha para ilha, sem que nenhuma das ilhas pareça muito antiga do ponto de vista geológico.

"Era evidente que nem a acção das condições ambientais, nem a vontade dos organismos (especialmente no caso das plantas), podia explicar os casos inumeráveis em que organismos de todos os tipos estão maravilhosamente adaptados aos seus hábitos de vida", explica Darwin. "Apercebi-me rapidamente de que a selecção era a pedra angular do sucesso do homem em criar raças bem sucedidas de animais e plantas. Mas como é que se podia aplicar a selecção a organismos vivendo no estado natural foi durante algum tempo um mistério para mim. A solução, segundo creio, é que os descendentes modificados de todas as formas dominantes e que estão a aumentar, tendem a adaptar-se a muitos locais altamente diversificado na economia da natureza", acrescenta.

Primeira edição de "A Origem das Espécies" esgota num dia

Publicada pela primeira vez a 24 de Dezembro de 1859, após um longo trabalho de resumo e sistematização de conceitos, "A Origem das Espécies" esgotou os primeiros 1250 exemplares num dia. A segunda edição de 3000 exemplares esgotou pouco depois e durante a vida de Darwin foi traduzida em quase todas as línguas europeias e em japonês.

"Foi por vezes dito que o sucesso da Origem provou 'que o assunto estava no ar', ou 'que as mentes das pessoas estavam preparadas para ele'. Não penso que isso seja estritamente verdadeiro, porque de vez em quando sondei uma quantidade razoável de naturalistas e nunca encontrei nenhum que duvidasse da estabilidade das espécies", lembra Darwin. "O que era estritamente verdadeiro, creio, era que inumeráveis factos estavam armazenados na mente dos naturalistas, prontos para ocupar o seu devido lugar logo que uma teoria que os acolhesse fosse suficientemente bem explicada".

Os organismos vivos evoluem gradualmente através da selecção natural. A tese de Darwin foi recebida com grande controvérsia pelo meio científico e religioso. Muitos sentiam que a visão de Darwin acabava com a distinção entre homens e animais e pela primeira vez a ciência dava resposta a questões que até então só eram respondidas pela fé. "Não parece haver mais desígnio na variabilidade dos seres orgânicos e na acção da selecção natural do que no modo como sopra o vento", escreve Darwin.

"Qual a explicação para uma organização em geral beneficente do mundo? Aqueles que acreditam, como eu, que os órgãos corporais e mentais de todos os seres se desenvolveram através da selecção natural, ou da sobrevivência do mais aptos, e também através do uso e do hábito, admitirão que esses órgãos foram formados para que os seus possuidores possam competir com outros seres e assim aumentem em número", salienta Darwin.

Darwin só veio completar o tema da evolução das espécies mais de uma década depois da publicação de "A Origem das Espécies", com "A descendência do Homem e Selecção em relação ao Sexo", em 1871, e "A Expressão da Emoção em Homens e Animais", em 1872.

Para quem nunca tinha pensado em ser reconhecido por sociedades científicas, Darwin ainda viu em vida algumas espécies de seres vivos e regiões no globo serem baptizados em sua homenagem. As 14 espécies de tentilhões, as aves que Darwin estudou nas Galápagos, foram nomeadas "tentilhões de Darwin". Na Cambridge onde o jovem naturalista gastava parte do seu tempo e dinheiro a investir numa colecção de escaravelhos, foi inaugurado já no século XX o Darwin College. Anos mais tarde veio a integrar a lista das personalidades mais importantes no mundo.

"Não podia empregar a minha vida de modo melhor do que a acrescentar um pouco à ciência natural"

Alguns anos antes de morrer, quando iniciou a escrita da sua autobiografia, – publicada em Portugal pela Relógio d'Água – Darwin dizia que, ainda que não tivesse aprendido muito, tornara-se mais hábil e encontrara o seu método de trabalho. "A minha mente parece ter-se tornado numa espécie de máquina para triturar leis gerais a partir de grandes colectâneas de factos, mas não consigo perceber porque é que isso causou a atrofia apenas dessa parte do cérebro da qual dependem os gostos elevados".

Se teve algum sucesso, explica, deveu-se somente ao amor pela ciência, a uma paciência sem limites em reflexões demoradas, perseverança no trabalho de observação e uma boa dose de imaginação e senso comum.

"Lembro-me de pensar, quando estava na Baía do Bom Sucesso na Terra do Fogo, que não podia empregar a minha vida de modo melhor do que a acrescentar um pouco à ciência natural. Fi-lo o melhor que pude", resumiu Darwin.

Morreu no dia 19 de Abril de 1882 e foi enterrado na Abadia de Westminster, próximo do amigo e referência em geologia Charles Lyell e outras figuras como Isaac Newton.

Carlos Costa
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